Wednesday, May 4, 2011

pêssego

de cada vez que me transformo num pêssego
é como se o que vivo se enterrasse
no mais fundo poço de insignificância.
um pêssego
passeio-me pelas ruas e, num repente, 
ei-lo
macio, esférico
uma ou outra saliência
que me torna diferente de todos os outros pêssegos.
o processo é instantâneo:
os pés encolhem, as pernas encolhem
tudo encolhe até me tornar nesse fruto
de um sumo autenticamente saboroso, viciante
e o que sinto é violência
órgãos explodindo
trezentos e sessenta e sete punhais atravessando músculos, tendões, ossos
o sangue evapora em minutos levando o resto com ele
nuvens de sangue
é o que vos digo.
o coração foge sempre,
assustado
arrastando-se para a valeta
e o cérebro envelhece muito
até morrer
renascendo de novo quando torno a ser corpo.
um pêssego
o casaco de um sem número de pilosidades 
faz-me agradável ao tacto
quem passa por mim
e vê um pêssego
toda eu um pêssego
pega em mim
guarda-me num bolso
e de todas as vezes
é um martírio do qual admito gostar:
um ser humano
que surge desse tal bolso
nu
rindo do mundo
e dos gritos de alguém
que só queria um pêssego

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