Tuesday, September 28, 2010

saudades, essas, morrerão terrivelmente sozinhas

a porta entreaberta
dá azo aos arrepios
que já me conhecem o mapa do corpo
e sabem exactamente onde cair
peço-te que a encostes,
fica mais quente assim
e sorrio,
aquele sorriso de malícia
que tantas outras vezes
me valeu um beijo sem fôlego
arrastas a pele para mim
roçando o cabelo nos meus poros desprevenidos
um braço sobe
tocas-me o rosto
como se apreciasses a escultura mais nobre
de contornos singelos,
a medo
um beijo no pé,
uma costura que rasga;
um aperto no sangue e na voz:
somos a noite,
em esplendores raros,
em denúncias ao céu
sinto-te
enquanto te passeias na praia que é o meu dorso
areia fina,
alva:
língua que morde
chegas-te a mim,
olhos fechados para melhor bebermos o amor
desprende-se o pecado do tecto
cortei-lhe o fio
quebra-se no chão,
em lençóis, paredes, mãos, costas

os pés frios
e o coração a ferver
encaixa-te
fazemos do escuro aliado de murmúrios de um prazer partilhado
e faço-me demorar em ti
qual doença,
qual tempestade que não quer ir embora

não vamos mesmo embora, nunca
falar-te dos teus lábios
que inspiram a poesia
amar com as mãos
assim

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