Monday, August 22, 2011

nenhuma carne



© filho da mãe - encontrei os teus dentes

nenhuma carne
nenhuma sede
em nenhum momento
de vida alguma

não sou
precavenho-me com o que me passa ao lado
o lixo mental
a cura
nenhum sonho e
ou
sinopse de noites, muitas em ti
nenhuma morte
nenhuma sorte

Wednesday, May 4, 2011

pêssego

de cada vez que me transformo num pêssego
é como se o que vivo se enterrasse
no mais fundo poço de insignificância.
um pêssego
passeio-me pelas ruas e, num repente, 
ei-lo
macio, esférico
uma ou outra saliência
que me torna diferente de todos os outros pêssegos.
o processo é instantâneo:
os pés encolhem, as pernas encolhem
tudo encolhe até me tornar nesse fruto
de um sumo autenticamente saboroso, viciante
e o que sinto é violência
órgãos explodindo
trezentos e sessenta e sete punhais atravessando músculos, tendões, ossos
o sangue evapora em minutos levando o resto com ele
nuvens de sangue
é o que vos digo.
o coração foge sempre,
assustado
arrastando-se para a valeta
e o cérebro envelhece muito
até morrer
renascendo de novo quando torno a ser corpo.
um pêssego
o casaco de um sem número de pilosidades 
faz-me agradável ao tacto
quem passa por mim
e vê um pêssego
toda eu um pêssego
pega em mim
guarda-me num bolso
e de todas as vezes
é um martírio do qual admito gostar:
um ser humano
que surge desse tal bolso
nu
rindo do mundo
e dos gritos de alguém
que só queria um pêssego

Tuesday, March 29, 2011

_

um poeta urge sempre por amar abismos que só ele vê

Sunday, January 30, 2011

do peito

as labaredas da tua boca
não tardarão a mergulhar-me
no êxtase de uma manhã
de lençóis desalinhados
corpos desfeitos
de um respirar que nos quer fugir
do peito
a ânsia, a sofreguidão
as mãos descobrindo
novos contornos
contornos novos
muito nossos
eu fora de mim
animal

Wednesday, January 12, 2011

nós cegos de nós

o sussurro
calcorreando vestígios de pele
nua
palavras penetrando-me
sinto-as cá dentro
e ficam
dignas de memórias
de momentos
de beijos roubados

quero provar-te

e o tempo pára
ali,
em nós cegos de nós

Wednesday, December 22, 2010

8 1/2

encostei-me ao mar
gritei-lhe o suor das ondas
marquei cada travo de espuma
a ferro queimado
preso nas máscaras de sal
ruído demente
de mel na água
a lume brando
nos sonhos, teus


e meus, de tanto te querer os braços
e te cegar a pele
em laivos de redenção,
num bruaá
em voz muito tremida
de menina

Sunday, December 12, 2010

maçã, amora
a tua, lábios de seda
boca-veludo

Tuesday, November 9, 2010

23

resguardo
o fogo que mata
nascido dos pés
a calvície mundana
e os empurrões
a crosta que sai
dos dias,
e nos deixa assim
sem estrada
um peito de rosas
queimadas

a tua mão
sedenta de mim
de ti em mim
e a mão,
uma mão que sangra
arrastando-se
de uma ponta à outra
do corpo
a tua boca
delicadamente pousada
sobre um seio
de pele arrepiada
instigando sensações
vai descendo coerente
cuidadosa no tocar
ardente

Wednesday, November 3, 2010

u

«U» é de últimos suspiros
os derradeiros encontros
de uma sofreguidão ubíqua;


é de ufania condensada 
em reflexos 
lábios, lâminas, urzes


é de umbigos húmidos,
o suor 
ungindo a pele de aromas únicos,
de ustório prazer

Monday, October 25, 2010

foge-me o chão

por tudo
abandona-me aqui
somente a terra me comerá os pés
o cansaço que derramo
será sorvido por um leito
que me aguarda
despido
quente

pudesse eu cheirar o que pensas
e tragar cada palavra
malícia de letras bem-vindas
num sopro que só o meu olhar
cuida
o amor já não se deixa abater assim
foram tempos
em que esquecer dava jeito
e fugir era bem feito
e mexer nas coisas significava
querer mesmo saber
o intuito

a essência
era comer as mãos com que se pecava
neste silêncio que não nos deixa dormir,
grita-me aos ouvidos
treme-me os lábios
pequenos bichos-do-mato
passeando-se no ruído
deste peito convalescente
um eterno volver
no cabelo que cheira a pêssego
e que de um travo
bebo
fio a fio
prendendo-me o esófago afrontado
fio a fio, por entre fios

a cor do mel
arde nos braços

Monday, October 18, 2010

lasciva

poesia não se lê, simplesmente; absorve-se
transforma carne e espírito
despe-nos de tudo o que pensávamos saber
cobre-nos de outras verdades
outras dádivas
outras insanidades
faz-nos ir ao que de mais fundo se cerca em nós,
nus e crus

Friday, October 15, 2010

precisas de um sonho que te persiga para que, um dia, tenhas o descaramento de o recusar.

Friday, October 8, 2010

anjo de mãos de terra

anjo de mãos de terra
e de coração nas entranhas
sujas
precioso grão de manhãs solarengas
na varanda, bebendo as sombras dos ciprestes

gavetas de pedra
guardando perfumes de bordados antigos
e
quebrando amores;
lugar solitário
cisnes no céu-da-boca

Wednesday, October 6, 2010

volúpia

o silêncio articulava-se nesse movimento parado da alma
numa dança infinita
de olhares cúmplices
as mãos,
de gestos buliçosos,
deixavam escapar o nervoso miudinho
espelhado nos seus corpos
a boca dela,
dengosa,
plena de uma sensualidade
de lábios mordidos pelo desejo
o sorriso era sincero, sabe-o bem
um sorriso como o sol da manhã
que nos beija os olhos e nos faz renascer,
e sentir o pensamento voar
solto no vento, no cabelo, na água dos rios
no pescoço de seda
beijar

Tuesday, September 28, 2010

carne

o ritmo
a melodia ascendente
sorvida de um trago
pungente,
o som rasgado da pele
e um corpo cheio
movendo-se
um outro corpo
mel


tempos
a pulsação partilhada
sôfrega
alcançando:


movimento impetuoso dos humores
(do grego, orgasmós)

saudades, essas, morrerão terrivelmente sozinhas

a porta entreaberta
dá azo aos arrepios
que já me conhecem o mapa do corpo
e sabem exactamente onde cair
peço-te que a encostes,
fica mais quente assim
e sorrio,
aquele sorriso de malícia
que tantas outras vezes
me valeu um beijo sem fôlego
arrastas a pele para mim
roçando o cabelo nos meus poros desprevenidos
um braço sobe
tocas-me o rosto
como se apreciasses a escultura mais nobre
de contornos singelos,
a medo
um beijo no pé,
uma costura que rasga;
um aperto no sangue e na voz:
somos a noite,
em esplendores raros,
em denúncias ao céu
sinto-te
enquanto te passeias na praia que é o meu dorso
areia fina,
alva:
língua que morde
chegas-te a mim,
olhos fechados para melhor bebermos o amor
desprende-se o pecado do tecto
cortei-lhe o fio
quebra-se no chão,
em lençóis, paredes, mãos, costas

os pés frios
e o coração a ferver
encaixa-te
fazemos do escuro aliado de murmúrios de um prazer partilhado
e faço-me demorar em ti
qual doença,
qual tempestade que não quer ir embora

não vamos mesmo embora, nunca
falar-te dos teus lábios
que inspiram a poesia
amar com as mãos
assim

Monday, September 20, 2010

costas

os cabelos estão soltos
cobrem o pescoço
as costas pálidas
subtilmente arqueadas
em direcção nenhuma
e a mão que as afaga
- contornos frios
é de todas
a mais forte
a mais tua




* eternamente inspirado por deftones - ghosts

Friday, September 10, 2010

camuflagem

prefiro um suspiro
camuflado na pele fria
a uma ausência de tudo

Monday, July 12, 2010

ode ao que é livre

não negues o que és
só porque não sabes como
enfrentá-lo;
não te escondas de ti
não te acanhes da vida
e dos sonhos
que sei estarem entranhados
em cada palavra soletrada
a medo;
não partas:
o mundo é,
sozinho,
o melhor e o pior lugar
para te deixares ficar
e é por isso mesmo que
não deves fugir de ti,
é por isso mesmo que te coso as mãos
na minha pele
por tempos indeterminados
– nem tudo tem que ter um fim
não nos obriguemos a isso.
descansa agora
não vou a lado algum
a não ser que mo peças
mas irei contigo
a partir deste exacto,
confuso
e preciso momento

Monday, July 5, 2010

vento

o ar rodeando-me as têmporas
expandindo-se
até ser vento
nestas mãos de framboesa madura
substância de seda
caindo das árvores
que nunca floriram

e esse vento
outrora adormecido
peca por não se sentir
nos cabelos
negros